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Leco – Um brasileiro em Barcelona

Leandro é um jovem paulistano que decidiu ganhar o mundo conciliando sua vontade de ter autonomia econômica e sair do ninho dos pais praticando rugby, sua grande paixão. Depois de alguns planos frustrados e muito pensar, ele partiu. Leco, como é carinhosamente chamado por todos, fez suas malas e com 23 anos escolheu Barcelona como sua nova morada.

Mas, por que Barcelona? Afinal de contas, para prática de esportes, Barcelona lembra Messi, futebol, jogar bola com os pés e não com as mãos como é o rubgy. Para jogar rubgy o senso comum é ir para Inglaterra, África do Sul, Austrália ou Nova Zelândia.

Leco barcelona rugby
Partida de rubgy Barcelona X El Savador – 05/11/2017
É aí que a personalidade do Leco se apresenta.

Ele não é uma pessoa comum, suas decisões são sempre diferentes do esperado. O Leco gosta de gente, afeto, calor humano e relações sociais constantes, daí sua escolha por Barcelona. Leco já tinha um grande amigo morando na cidade na cidade com o pai, pessoas que foram fundamentais para facilitar sua escolha de destino e, principalmente, para que ele se sentisse bem recebido e acolhido desde o início. E assim o foi. A barreira do novo foi rompida com tranquilidade. Leandro teve a oportunidade de ser apresentado à Barcelona pelo olhar de dois moradores e, pelas lentes de seus anfitriões, foi possível perceber que ele tinha feito a escolha certa.

É claro que seus pais, Tereza e Geraldo, não explicitaram isso para ele, mas a verdade é que estavam bem mais tranquilos em saber que o filho do meio, o único homem, estaria bem amparado no exterior para começar essa nova aventura. Sobretudo porque, já conheciam bem como a Espanha recebe jovens, a filha mais velha alguns anos antes também havia morado por um tempo lá.

E, como não ensinam na escola como ser adulto…

Leco penou no seu primeiro ano fora da sua zona protegida e de conforto. O problema não foi ter onde morar, isso já estava acertado com seus anfitriões, assim como preencher seu tempo e ter uma renda. Afinal, ele tinha trabalho. Mas, durante seu primeiro ano em Barcelona ele entendeu que burocracia é burocracia em qualquer lugar do mundo: maçante e exaustiva. O que muda é se a pessoa que te obriga a lidar com a burocracia faz parte do grupo de quem cria problema ou de quem resolve problema. No caso dele, foi o primeiro.

Leco teve muita dificuldade em se informar e entender como proceder para renovar seu visto, que de início era apenas de estudante e ele queria voar, ter um visto de trabalho. Para isso, lidou com despachantes que facilmente se passariam por robôs de tão mecânicas que eram suas atitudes. Para uma pessoa como Leco que valoriza a conversa olho no olho, que defende que cada ser humano é humano, o auxílio que recebeu dos despachantes “robôs” foi um tapa na cara. Ele só não se lembrou de que o tapa foi dado pela vida, como um sinal de alerta para dizer:

– “Ei, quer ser adulto? Ser adulto dói.”

Muitos trancos e barrancos depois, visto resolvido. Embora ele nunca vá saber de fato se a dificuldade que passou foi porque burocracia é difícil mesmo ou se tinha sido seu primeiro contato com a xenofobia velada que paira em Barcelona…Na Europa de maneira geral.

Seis anos se passaram desde aquele dia que o Leco passou pela imigração espanhola com todos os seus documentos guardados em um porta voucher. A dúvida se daria certo que tanto lhe incomodava passou. Deu tudo certo. Hoje, Leandro trabalha em uma distribuidora de material sanitário para tatuagem em todo continente europeu. Nem no trabalho o vínculo com o Brasil se perdeu, porque a fábrica dos materiais fica no Brasil e após a importação, tudo é revendido e distribuído pela Europa.

Dentro do grupo, ainda há uma escola de tatuagem e piercing em Barcelona, na qual ele é responsável por toda parte de comercialização de cursos e tratativas com clientes. Na sua opinião, o fato de assumir múltiplas responsabilidades no trabalho evidenciam sua origem: brasileiro. Que lá fora é o reconhecido como um povo trabalhador e esforçado, o que facilitou e muito sua entrada no mercado de trabalho em Barcelona.

Leandro domou a burocracia e avançou uma casa no jogo da vida

Agora está com visto de residência e trabalho por mais dois anos e já deu entrada na documentação necessária para solicitar sua cidadania, o que lhe dará mais autonomia e liberdade para viver na Espanha. Embora more em Barcelona há seis anos, Leco reconhece que nunca deixou de se sentir um visitante, visto como estrangeiro, uma pessoa à parte na sociedade catalã. Afinal de contas, depois de tanto tempo, hoje, tem muito claro que na realidade, a Catalunha é um país dentro de outro país.

Uma sociedade com costumes, cultura, identidade e realidades diferentes do restante da Espanha. Que perde um pouco quando comparada às cidades que ficam no espaço da coroa espanhola, porque são muitos impostos cobrados da população; as rodovias, por exemplo, poderiam ser mais acessíveis, uma vez que há inúmeros pedágios. Em razão desse conflito existente há anos, Leco tem consciência que, pelo fato de não concordar com todas as reclamações e não ter participação nas decisões políticas, sua aceitação na sociedade barcelonesa é mais difícil.

Por outro lado, o que está a seu alcance para se inserir cada vez mais como morador de Barcelona e ser visto dessa forma, pode acreditar, é feito.

No seu círculo de amizades, Leco convive com gente do mundo inteiro. Não dá para esperar algo muito diferente de uma cidade cosmopolita como Barcelona, nem dele. Espanhóis, catalães, brasileiros, argentinos, mexicanos todos estão com ele no seu dia a dia. No grupo dos imigrantes, cada um tem a sua história, mas todos com algo em comum: a fluência em espanhol, o conhecimento e respeito pela cultura catalã. Afinal, moram numa cidade cujo orgulho pela preservação da sua identidade é exaltado diariamente.

Um exemplo disso é a disponibilidade de se aprender catalão gratuitamente, desafio encarado por Leco. O curso faz parte de uma iniciativa do governo em parceria com a iniciativa privada que visa disseminar o conhecimento do idioma e da cultura local para todos que tiverem interesse.

E veja só:

Ter aprendido catalão e manter o envolvimento com a sociedade, seja por participar de grêmios e associações ou se filiar à biblioteca do bairro, ajudou e muito na solicitação de cidadania espanhola. Há forma mais evidente de se valorizar e preservar a identidade e cultura local?

A comparação entre São Paulo e Barcelona é inevitável para ele em diversos aspectos. As diferenças entre morar numa das maiores cidades do mundo e na capital da Catalunha são muito evidentes. Inevitavelmente a principal é a mobilidade. Seus pais moram num bairro de São Paulo rodeado por vias expressas, é carro para todo lado. A ausência de calçadas, áreas verdes, bosques e metrô por perto sempre o sufocaram. Era carro para ir para o treino de rugby, carro para ir para faculdade, carro, barulho, muitas horas de trânsito. Em Barcelona não. Na verdade, nem carro ele tem. Trânsito? Nem pensar. Leco se locomove de bicicleta, skate, a pé ou metrô, sendo raras as vezes que usa sua scooter para longas distâncias. Essa está parada há um ano.

Ponto para Barcelona! Ou try?

Leco não pratica mais rugby de forma profissional como quando chegou em Barcelona. Isso não significa que sua admiração pelo esporte tenha passado. Longe disso! Havia quem pensasse que não ter tempo livre aos finais de semana era um sacrifício, mas ele nunca viu dessa forma. Como que jogar o jogo que gosta e estar entre amigos poderia ser difícil? Em Barcelona isso não foi diferente. Nos primeiros anos, praticamente todos os finais de semana entre os meses de outubro e dezembro eram dedicados ao rubgy, depois entre janeiro e abril o intervalo entre os jogos era mais espaçado.

De todo modo, não havia muito tempo, propriamente, livre. Leco aproveitava o tempo que tinha durante a semana para caminhar por algum bairro, conhecer um novo bar, ir a um parque, sempre buscando entender a realidade da cidade. Depois de um certo tempo, ele até se acostumou com a presença dos pontos turísticos no seu dia a dia. Para ele, passar quase que diariamente pelas Ramblas ou pela Sagrada Família não era uma atividade turística, mas uma realidade intrínseca da cidade.

Imagine só! Que privilégio!

Se para o turista os pontos famosos de Barcelona são atrações, para os moradores a perspectiva muda. São tantos pontos na cidade que esses tomam a proporção de atores na rotina barcelonesa, alterando profundamente a dinâmica da cidade, exaltando o orgulho dos seus moradores por esses patrimônios. Afinal, quando uma cidade é pensada para os seus residentes é mais do que natural que esteja preparada para seus visitantes.

Barcelona é assim. Uma mescla de oportunidades de lazer. Seus parques são multifacetados e convidativos para todas as idades, cada um com uma particularidade. Os museus são os mais diversos e todo primeiro domingo do mês ficam todos abertos gratuitamente para os seus moradores. A Prefeitura muitas vezes junto com a iniciativa privada realiza espetáculos, cinemas ao ar livre durante o verão e shows. Voluntariamente moradores se organizam para realizar atividades coletivas nos seus bairros para estimular a convivência social.

leco em barcelona
Um dia qualquer em Barcelona – 05/06/2018

Lembra que o Leco gosta de afeto e relações sociais constantes? Pois bem, Barcelona lhe dá isso. Todos os dias. É uma cidade que pulsa, que vive em constante mudança. A vivência da rua, a possibilidade de conhecer os lugares e as pessoas que estão ali pelo seu nome, manter uma relação mais próxima com todos – isso é Barcelona! Já São Paulo não. Muito pelo contrário. A capital paulistana é conhecida pelas relações humanas serem frias e distantes. Talvez seja por isso que Leco não pense em retornar ao Brasil. Nunca descartou a possibilidade, mas no momento está tudo bem. E como ele sabe bem, não se mexe muito em time que está ganhando.

E a quantidade de curtas viagens que pode fazer?

Seu maior prazer é poder passear pelos arredores da cidade, la Fageda d’en Jordà, Parc Nacional d’Aigües Tortes i Estany de Sant Maurici, as praias da belíssima Costa Brava são alguns dos lugares que lhe trazem paz. Sobretudo aqueles que estão bem pertinho de Barcelona, a menos de 30 minutos como o balneário de Sitges. Nada mal, né? Nada como morar numa cidade criativa!

leco arrredores barcelona
Ruta Els 7 Gorgs – 29/07/2019

A estrutura da cidade, a vida cultural, a mobilidade, o uso pleno dos espaços públicos são a essência da vida em Barcelona. Leco percebe que esses aspectos o estimulam diariamente, para se sentir mais vivo, se movimentar mais, facilitam inclusive a assumir mais compromissos. Tempo.

Ele só percebeu o quanto sentia falta disso quando morava no Brasil depois que se mudou para Barcelona. Mas, como é possível sentir falta de algo que você nem sabe o que é? É…Vem! A experiência de viajar te mostra isso.

Mas não se engane! Nem tudo são flores.

A vida do Leco em Barcelona parece um sonho até aqui? Não é não. Lembra do tapa que ele tomou para ser alertado de que ser adulto não é tão bacana como as crianças imaginam? Passados dois, três anos veio o segundo tapa. Morar numa das cidades mais visitadas da Europa não é fácil.

Enquanto que, em São Paulo o turismo tem um perfil de negócios, circula-se muito de carro e normalmente se permanece e se vê a cidade de ambientes fechados, a dinâmica de Barcelona é o oposto, trata-se de uma cidade aberta. Logo, tudo é mais cheio, grupos de pessoas circulando constantemente, ocupando espaços e ruas esquecendo que existe uma vida e rotina dos moradores. E sabe do pior?

A explosão de apartamentos disponibilizados em plataformas de aluguéis de curta temporada provocou um aumento substancial no custo de vida dos moradores de Barcelona, causando o afastamento das pessoas locais de determinados bairros, principalmente dos centrais que hoje são basicamente ocupados por turistas ou pessoas que buscam por moradia por curto tempo.

Qual a consequência disso?

A associação de que todo estrangeiro é responsável por esse caos instaurado, por isso que o Leco sente em muitas ocasiões um xenofobismo velado na cidade.

Embora claramente haja locais que foram pensados muito mais para o turista do que para o morador, é aí que o reside o problema. Uma cidade pensada para o turista não é necessariamente boa para o morador, isso porque a noção de limite se perde podendo agravar as relações entre as partes. Adicione aí uma pitada da aura de festa que ronda em Barcelona, mundialmente conhecida por ser uma cidade para se divertir livremente, sem muitas regras. Algo que também é observado em Amsterdã. Todas aquelas iniciativas praticadas por moradores e pela Prefeitura para estimular o convívio entre as pessoas e estimular o sentimento de pertencimento sendo deturpadas em tempo real.

A culpa não é exclusiva do turista, mas falta consciência sim. Afinal, não se pode esquecer que ali é a casa de alguém e quando se é visita, há regras de etiqueta a serem respeitadas. Mas veja só que ironia, com a pandemia esse problema do overturismo ficou mais evidente, porque Barcelona ficou vazia. Se antes, o Leco enfrentava um mar de gente ao redor da Sagrada Família para chegar em casa, agora na ausência das pessoas, as belezas ficaram mais visíveis.

Como será o equilíbrio da convivência entre moradores e turistas em Barcelona no cenário pós-pandemia?

Aguarde as cenas dos próximos capítulos.

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