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O que você sabe sobre racismo no turismo?

Quando decidi escrever sobre o racismo no turismo, eu sabia que não seria fácil. Li uma postagem da Djamila Ribeiro que me fez refletir. Eu sempre preconizei que é fundamental praticarmos a empatia no turismo, atender nossos clientes como nós gostaríamos de ser atendidos, só assim nos destacamos ante a concorrência online. Eu gosto da palavra empatia e tudo o que ela representa. Mas, como falar em empatia com negros se eu não tenho a menor ideia do que é ser um num país tão racista como o Brasil? Djamila explica que, antes de mais nada é preciso ouvir os negros para entendê-los e abrir espaço para eles falarem.  

Quando eu entro em um avião, hotel, museu ou restaurante, eu sempre paro e conto quantas pessoas negras têm ao meu redor. Normalmente, esse número varia entre 0 e 2 e isso me incomoda profundamente. Fico me perguntando como essas pessoas se sentem num lugar assim. Isto porque, se entre os clientes eles são poucos, mas entre aqueles que estão servindo são a maioria. Como deve ser lidar com isso todo dia, toda hora?

Pensando nessas questões, eu convidei João Marcelo Nascimento, meu amigo e cliente para conversarmos sobre experiências pessoais dele como viajante e reflexões sobre o racismo. Assista!

Guilherme Dias, autor do blog Guia Negro, escreveu em 2018 um post sobre este assunto “Negro viajante: tratamento recebido, locais de cultura negra e solidão no turismo”.

“Todo negro vive algum tipo de preconceito ou rejeição quando está viajando.”

A frase acima é de Carlos Humberto da Silva, sócio da Diáspora.black. Esta é uma startup de impacto social que promove a igualdade racial e valorização da cultura negra, por meio da troca de experiências de viagens de negros, rede de meios de hospedagem que tem relação direta ou indireta com a história e a cultura negra. Ele é um dos empreendedores negros que eu tomei conhecimento nos últimos dias. Foram muitos e todos com ideias geniais. Para conhecer alguns deles, clique aqui e aqui também. 

As agências reguladoras de turismo no Brasil não possuem os dados exatos em relação aos viajantes negros, porque não há questionamento sobre raça nas pesquisas. No entanto, basta entrar em um avião ou em um hotel para perceber que os negros são minoria quando o assunto é viagem. Porém, há alguns dados secundários que contribuem para a reflexão sobre o racismo no turismo.

Segundo o Ministério do Turismo, houve um aumento de 105% no consumo do mercado de turismo entre as classes C, D e E no período de 2013 – 2018. Por outro lado, de acordo com dados do IBGE de 2015, 3 em cada 4 pessoas mais pobres no Brasil são negras. Logo, pode-se concluir que sim, nos últimos sete anos, os negros passaram a viajar mais.

E mais, você sabia que segundo o IBGE, 54% da população brasileira é formada por pretos e pardos? São quase 114 milhões de pessoas. Numa pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, se fosse um país, a população negra brasileira seria o 11º país mais populoso do mundo e o 17º em consumo, porque esse grupo movimenta cerca de R$ 1,7 trilhões por ano. Mesmo assim, 90% das campanhas publicitárias têm apenas protagonistas brancos.

Nos EUA os dados sobre esse público são mais claros. Segundo o Instituto Mandala, em 2018 foram mais de 63 bilhões de dólares gastos em viagens pelos afro-americanos. 70% deste público procura pelo menos uma dica sobre viagem internacional e viaja seis ou mais vezes por ano. Mas, somente 2,6% das propagandas de turismo os têm como público-alvo.


Se ser negro no Brasil é uma luta diária, ser uma mulher negra é três vezes mais difícil. Conversei com a minha amiga e talentosa chef Aline Guedes sobre sua trajetória profissional e pessoal marcada por momentos de superação por causa da sua cor de pele e gênero. Não deixe de assistir, esse foi um papo muito emocionante!


“Democratizar o turismo aos negros é uma luta contra o racismo.”

Beatriz Santos de Souza, sócia da Bráfika Viagens.

Um estudo realizado pela Universidade de Harvard em 2016 sobre o Airbnb identificou que pessoas com nome tipicamente afro-americano tinham 16% menos chances de serem aceitas pelos donos dos imóveis. Isso mesmo! O Airbnb: uma empresa que possui mais de 150 milhões de clientes, presente em 81 mil cidades e 200 países, com mais de 5 milhões de imóveis cadastrados.  Carlos Humberto vivenciou o caminho contrário, quando um casal de hóspedes holandeses se recusou a permanecer na sua casa quando viram que seu anfitrião era negro. E enfatiza: “as pesquisas mostram que a chance de um negro ser aceito por anfitrião é menor.”

Desde a publicação dessa pesquisa, o Airbnb criou uma política de não discriminação, porém não é categórica em suspender o anfitrião que recurse um hóspede por questões de raça ou gênero. Para chegar a esse ponto, é  necessário protocolar uma reclamação e aguardar análise. Entretanto, anfitriões ficam impedidos de manter seus anúncios no mesmo dia em que responderam que não havia disponibilidade. Caso você queira ler mais a respeito desta política de não discriminação, clique aqui.

A presença de profissionais negros no mercado de turismo

Em 2018, o Panrotas – principal canal de notícias do mercado de turismo – publicou a edição “Black Money: onde estão os profissionais negros no Turismo?” trazendo o depoimento de três profissionais, sob a óptica do ganho que a representatividade e diversidade pode trazer para as empresas. Essa também é uma discussão muito pertinente, porém, eu continuei sentindo falta de ter acessos a dados brutos e novamente, recorri a dados secundários. De acordo com um levantamento realizado pelo SEBRAE, existem 14 milhões de empreendedores negros no Brasil, responsáveis por gerar R$ 359 bilhões em renda própria.  Contudo, 82% não possuem CNPJ e 57% deles alegam que sofreram preconceito quando tentaram criar seu próprio negócio. 

Um exemplo prático: como sabem sou franqueada master da Clube Turismo responsável pela expansão no Estado de São Paulo. O nosso processo de seleção acontece em duas etapas, sendo que a primeira é uma análise socioeconômica. Nesta etapa, não temos nenhum contato direto com o candidato e não há declaração de raça. No segundo passo da seleção, é realizada uma entrevista qualificada para esclarecimentos de dúvidas e aprofundamento na avaliação do perfil do candidato. Das três modalidades comercializadas, em apenas uma a entrevista é presencial.

Posso afirmar que não há espaço para avaliações tendenciosas, racistas, machistas e homofóbicas. Mas, mesmo assim infelizmente menos de 2% dos nossos franqueados são negros. É a evidência trazida pela análise socioeconômica! Desde que me deparei com este número, estou me perguntando o que devemos fazer para mudar essa realidade.

The Green Book – orientações para um negro viajar nos EUA

Sim, The Green Book, ganhador da categoria de melhor filme no Oscar 2019, se inspirou no The Negro Motorist Green Book, ou, O Livro Verde do Motorista Negro que circulou nos EUA entre 1936 e 1967,  período de segregação racial exacerbada no país. Trata-se de um guia que trazia os poucos hotéis, bares e restaurantes que aceitavam e eram seguros para afro-americanos. Só para se ter um pouco de perspectiva, em 1950 foram registrados 25 milhões de turistas no mundo e em 1973 já eram mais de 190 milhões de viajantes. Não há dados sobre percentual de brancos e negros, mas posso supor que eram, em sua maioria esmagadora, turistas brancos.  Sim, enquanto uns precisavam de um guia para saber onde seriam bem vindos outros viajavam livremente.

Mas…Será que de lá para cá o racismo no turismo mudou?

“Então viajar o mundo é apenas um sonho branco?”

Mary Ellen, escritora. Bitonga Travel.

Eu li muitos depoimentos de viajantes negros. Faço questão de compartilhar com vocês alguns deles:

Guilherme DiasGuia Negro
“Em diferentes fronteiras por onde passei, também fui revistado e bastante questionado. Viajei do Brasil para o Chile por terra, cruzando pelo norte da Argentina. Foram sete dias e três revistas. Quando cheguei em San Pedro, encontrei um outro viajante que tinha passado três meses viajando a Argentina por terra. Falei das revistas nos ônibus. “Ah, mas eles só revistam quem tem cara de ‘malandro’”, disse ele, branco, filho de médicos. Eu disse: “sim, fui revistado três vezes em uma semana”. Ele mudou de assunto.” Leia na íntegra aqui

Oneika Raymond Oneika The Traveller
O que significa ser um negro no exterior, cinco situações comuns enfrentadas por negros enquanto viajam.

Evita RobisonNomadness Travel Tribe
A palestra de Evita explora o contexto histórico das viagens afro-americanas nos EUA durante Jim Crow, enquanto escancara a lacuna com o que agora é visto como o ‘movimento das viagens negras’.

Maju Coutinho – Jornalista
Viajei com o meu marido para o exterior. Ele, negro, saiu para passear à noite em um parque. Não pude ir porque não estava passando muito bem. Ele voltou radiante, falando assim: “Pela primeira vez eu me senti livre de passar ao lado de mulheres brancas, de senhoras brancas e não sentir um olhar de repulsa e de medo.”

Se você chegou até aqui e não se incomodou nem um pouquinho com tudo o que leu, informo que você é racista e precisa parar com isso agora. Isso não é normal e não pode ser relativizado. 

“Como serei tratada em lugares em que há poucas pessoas que se parecem comigo?”

Oneika Raymond

Isso não deveria ser um fator levado em conta na escolha de uma viagem. No entanto, é.

Todas as agências de viagens e redes de viajantes envolvendo negros que eu encontrei nos  últimos dias foram criadas por pessoas com motivações em comum: romper barreiras do racismo no turismo e trazer um olhar mais inclusivo para o setor, com valorização da cultura negra e da ancestralidade.  Esse último ponto me chamou atenção, assim como o fato de a grande maioria das agências vender ou incentivar viagens exclusivamente para países da África.

Eu demorei para entender que para o turista não era só uma questão de conhecer suas próprias origens, a valorização da ancestralidade é muito mais do que isso. Negros priorizam viajar para destinos em que a população é de maioria negra, porque nesses destinos não sofrem com a solidão no turismo. Mas sobretudo, porque se sentem representados e viajar também é um processo de reconhecimento. Numa sociedade globalizada como a que vivemos, em que viajar ainda não é um direito de todos e não é diverso e antirracista, este reconhecimento estimula o sentimento de pertencimento entre os negros e os fortalece.

Admito: Eu assumo a responsabilidade por nunca ter olhado para o público de viajantes negros, procurado por travel influencers negros nas redes sociais, buscado informações sobre blogueiros negros e estudado antes sobre o racismo no turismo. Mas, mais do que isso, me comprometo a falar sobre o assunto,  valorizar mais a cultura negra nas indicações de destinos, conscientizar a todos que estão ao meu alcance que o negro tem o seu lugar no turismo e deve ser respeitado.

E você, viajante ou profissional do turismo, o que vai fazer para combater o racismo no turismo?

Vidas negras importam.

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Olá, eu
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Olá! Meu nome é Alice Assad Wassall, eu sou consultora de sustentabilidade no turismo. Estou aqui para ajudar você a identificar o propósito da sua empresa e a adaptá-la a todas as tendências da sustentabilidade. 

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Un blog sobre la sostenibilidad en el turismo

Se você quer ler em português, clique aquiIf you want to read in english, clique hereLa sostenibilidad y los negocios de impacto positivo son temas que, de alguna manera, siempre han estado presentes en mi vida. Esta es una de las razones por las que hoy en día la sostenibilidad

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